Antonio Carlos Jobim (25-1-1927 / 8-12-1994), foi testemunha e (principalmente) personagem de substanciais mudanças em nossa música popular, a partir do bairro onde morou desde os quatro anos de idade, Ipanema no Rio de Janeiro, Quando começou a estudar piano, em 1941, com o professor Has Joachim Koellreutter.
O grande êmulo da música popular brasileira era o carnaval (sambas e marchas, especialmente) e a chamada música de meio de ano, com um repertório que ia das Valsas e dos samba-canções, cantados por por Orlando Silva, Sílvio Caldas e Francisco Alves, até a música junina. O rádio começava a intensificar a transmissão de músicas norte-americanas, que aqui chegavam estimuladas pelo cinema, e, na música popular brasileira, eram poucas as tentativas de desviá-las por outro caminho qualquer. A grande novidade eram os sambas orquestrados, graças ao exito de Aquarela do Brasil de Ary Barro, gravada dois anos antes, com uma orquestração realmente inovadora de Radamés Gnattali.
Observa-se uma certa ebulição na música popular brasileira em 1946, ano em que Tom Jobim passou para a faculdade de Arquitetura, onde permaneceu durante apenas um ano, decidindo-se, aí, sim por dedicar-se inteiramente à música. Em junho a gravadora Continental lançaria um disco destinado a obter grande repercução: o samba-canção Copacabana, de João de Barros e Alberto Ribeiro, cantado por Dick Farney. Era uma obra que acabou abrindo um novo caminho na música popular brasileira e que continha ingredientes claramente colhidos da música norte-americana.
Criado em 1944, Copacabana foi composto para atender a um pedido do editor norte-americano Wallace Downey para que joão de Barros e Alberto Ribeiro fizessem uma música para um novo night-club que seria inaugurado, dali a alguns dias, em Nova Iorque, chamado Copacabana. A música não foi criada a tempo de atender ao pedido de Downey. Em 1946 João de Barros, diretor artístico da gravadora Continental, ofereceu a música a um jovem cantor Fanésio Dutra e Silva, que adota o pseudônimo de Dick Farney quando pretendia fazer carreira de cantor nos EUA. A música obteve grande êxito e criou condições necessárias para que outros compositores fizessem um tipo de música que recebeu a classificação de samba moderno e que, sem dúvida, influenciaria claramente o gosto musical de Antonio Carlos Jobim.
Ao decidir trocar a arquitetura pela música, encontrou sérias resistências familiares. A começar pela mãe, dona Nilza Brasileiro de Almeida Jobim que temia que o filho, exercendo a profissão de músico -e, mais grave, à noite -, acabasse tuberculoso, como tantos outros que misturavam trabalho com boêmia. Quem o apoiou, logo de saída, foi o seu padrasto, Celso Frota Pessoa ("o pai que conheci", segundo Tom, que perdera o verdadeiro pai, Jorge de Oliveira Jobim, quando tinha oito anos de idade - Jorge Jobim, por sinal, estava separado ha´sete anos de dona Nilza, ou seja, desde o primeiro ano de vida do compositor).
Foi uma decisão difícil, é verdade, mas é verdade também que toda a família o apoiava nas suas ligações com música. O seu primeiro piano foi comprado por dona Nilza para a filha Helena, mas, ao notar que a irmã não se interessava tanto pelo instrumento, Tom Jobim tratou de se aproximar-se dele. E teve excelentes professores de música. Além de Koelleutter - uma lenda na história do ensino musical em nosso país -, teve como mestres Lúcia Branco, Tomás Teran e Paulo Silva. Mais tarde, desenvolveu os seus conhecimentos musicais com a orientação de nomes como Alceu Boquino, Radamés Gnattali, Lyrio Panicalli e Léo Peracchi. Além disso, contou com a ajuda de dois tios: João Lira madeira, matemático, presidente da sociedade de Astronomia e violonista clássico, e Marcelo Brasileiro de Almeida, violonista popular e cantor amador.
em 1952 foi chamado para trabalhar na gravadora Continetal, como assistente do maestro Radamés Gnattali, Além de dar assistência a Radamés Gnattali, Tom ocupava-se de passar para a pauta as melodias dos compositores que não sabiam escrever música. A sua estréia como compositor, porém, não foi na Continental, mas na Sinter, onde o cantor santista Maurici Moura gravou o samba-canção Incerteza, de Tom e Newton Mendonça. O disco saiu em abril de 1953, em 1954 a Continental lançou Teresa da praia, de Tom Jobim e Billy Blanco, em dezembro desse mesmo ano coube a Continental lançar o que seria a obra mais pretensiosa (até então) do nosso herói: Sinfonia do Rio de Janeiro, uma série de sambas, com letras de Billy Blanco, exaltando a cidade, através de 11 movimentos. Foi um marco na carreira de Tom Jombim e da própria Continental, que dava início à sua produção de long-play de dez polegadas, sendo Sinfonia o terceiro lançamento da gravadora.
Em 1955, Antonio Carlos Jobim já era um compositor procurado pelos cantores e uma das sua músicas - o samba - canção Se é por falta de adeus, parceria de Dolores Duran - foi considerada das melhores do ano. A interpretação ficou por conta de Dóris Monteiro. Ainda em 1955, firmava-se também como um dos arranjadores da continental, contemplada com com o prêmio de melhor gravação do ano, da revista Cigarra, com o samba-canção Eu e meu coração (Inaldo Vilarim e A. Botelho), gravado por Dóris Monteiro. O arranjo era de Tom. O seu trabalho como arranjador rendeu-lhe o segundo lugar (ao lado de Pixinguinha e de Renato de Oliveira) na relação dos melhores do ano, elaborada pelo crítico Ary Vasconcelos. Em primeiro lugar, empatados, ficaram Radamés Gnattali e Lyrio Panicalli. Naquele ano, passou a trabalhar ao lado de maestros como Oswado Borba, léo Peracchi e outros.
Mas o que mudaria, definitivamente, a vida e Tom Jobim foi o seu encontro com o poeta Vinicius de Moraes, no bar Vilarino, no Centro do Rio de Janeiro, em meados de 1956. No Vil\rino, Vinicius comunicava aos companheiros de boêmia a sua preocupação por não ter ainda encontrado um músico para fazer a direção musical e criar as melodias da sua peça Orfeu da Conceição. Foi o crítico e historiador de nossa música popular Lúcio Rangel quem teve a idéia de conduzir Tom Jobim, sentado numa das mesas do Vilarino, à mesa de Vinicius de Moraes. Feita a apresentação, Vinicius passou a expor a sua idéia da peça - versão negra do mito grego de Orfeu, o divino músico de trácia.
Após ouvir tudo pacientemente Tom respondeu com uma pergunta: "Tem algum dinheiro nisso?" Lúcio Rangel convocou-o para um canto e observou: " Este é o poeta e diplomata Vinicius de Moraes! Como é que você tem coragem de falar em dinheiro numa hora dessas?" É que Lucio não sabia que Tom Jobim enfrentava dificuldades financeiras e "vivia correndo atrás do alugue".
A pergunta, porém , não alterou a intenção de Vinicius de tê-lo como parceiro em Orfeu da Conceição. No dia seguinte, já estavam trabalhando na casa do poeta. Se todos fossem iguais a você foi a primeira música que ficou pronta. Em seguida, foram saindo Mulher sempre mulher, Um nome de mulher, Eu e meu amor e Lamento do morro. Tom também fez a harmonização da Valsa do Orfeu, letra e música de Vinicius de Moraes. A peça estreou no Teatro Municipal, com direção de Léo Jusi, cenários de Oscar Niemeyer,figurinos de Lila de Moraes, direção musical de Tom Jobim, regência de Léo Peracchi e um imenso elenco.
Terminada a temporada da peça, a dupla Tom Jobim - Vinicius de Moraes começou a trabalhar nas músicas da versão cinematográfica de Orfeu da Conceição, produção francesa de Sacha Gordine e direção de Marcel Camus. Entre as músicas feitas para o filme - vencedor do Festival de Cannes de 1959 - , estavam a samba A felicidade e O nosso amor. A vitória em cannes e o grande sucesso internacional do Orfeu contribuíram, sem dúvida, para o clima de euforia existente no Brasil, produzido pelo governo desenvolvimentista de Juscelino Kubitschek de Juscelino Kubitschek. No campo da cultura, surgia o Cinema Novo e o teatro renovava-se com o aparecimento de novos autores, novas peças, novos atores, todos comprometidos com uma nova linguagem e com a discussão dos problemas brasileiros, no esporte foram varis as conquistas, como a da Copa do Mundo da Suécia, a de todas as competições internacionais de tênis pela paulista Maria Ester Bueno e a do título mundial de boxes obtido por Éder Jofre.
Nesse clima surgiu a Bossa Nova. Foi o clímax de diversas tentativas de modernização da nossa música popular, feitas desde a divulgação da obra de Custódio Mesquita e que passaram pelo lançamento do samba-canção Copacabana, das músicas feitas por Garoto, Jony Alf, Valzinho e pelo próprio Antonio Carlos Jobim. O movimento explodiu quando a gravadora Odeon lançou, em julho de 1958, um disco de 78 rotações, contendo Chega de Saudade (Tom Jobim e Vinicius de Moraes) http://www.youtube.com/watch?v=guMek3_D6ls e, do outro, Bim-bom (João Gilberto). Os arranjos eram do próprio Tom e o interprete o baiano João Gilberto que introduzia na música popular brasileira uma nova batida de violão e um estilo revolucionário de cantar nossas músicas. E foram as músicas cantadas por joão que iriam consolidar o movimento. Uma delas, foi Desafinado, de Tom Jobim e Newton Mendonça http://www.youtube.com/watch?v=n81JA6xSbcs, cuja letra dizia que "isso é bossa nova/Isso é muito natural".
Estabelecia-se, assim, o trio de 'papas' da Bossa Nova, composto por João Gilberto, Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes. Outros nomes importantes no movimento foram o produtor Aloysio de Oliveira, a cantora Silvinha Telles e os compositores Carlos Lyra , Roberto Menescal, Ronaldo Bôscoli, Sérgio Ricardo, João Donato e vários outros.
Em fins de 1960, a Odeon fez a primeira exportação da Bossa Nova para os EUA, mandou uma montagem de gravações de João Gilberto intitulada Brazil's brilliant. Em 1961, apresentou-se no Rio de Janeiro um importante grupo de músicos norte-americano de jazz que, gravou ao voltar para os Estados Unidos, gravou músicas da Bossa Nova. Eram eles Coleman Hawkins, Curtiss Fuller, Zoot Sims, Herbie Mann e outros. Nos Estados Unidos, Chales Byrd e Dizzy Gillespie gravavam bossa nova.Stan Getz fazia a famosa gravação de Desafinado http://www.youtube.com/watch?v=dxYNMO-PdHA&ob=av2n, com a qual vendeu mais de um milhão de exemplares. A música de Tom Jobim estourava nos EUA, país que só conheceu em novembro de 1962, quando integrou o grupo de brasileiros que se apresentou no Carnegie Hall.
Tom permaneceu em Nova Iorque quase nove meses, período que foi considerado o melhor arranjador musical pela National Academy of Recording Arts and Sciences, da qual recebeu o seu primeiro troféu internacional. O premio referia-se aos arranjos do disco de João Gilberto que a Odeon enviou para os EUA. Em maio, gravou o LP Antonio Carlos Jobim - the composer of Desafinado plays, com 12 músicas de sua autoria, entre as quais Garota de Ipanema, que, pouco depois, seria o maior suceso de música brasileira no exterior. O crítico Pete Welding, do Down Beat, atribuiu nota máxima ao disco - cinco estrelas - e lamentou não haver "mais estrelas para premia-lo".
Pouco depois, outro disco chegava ás paradas norte-americanas; Getz, Gilbert - featuring Antonio Carlos Jobim, que, em menos de um ano, vendeu mais de dois milhões de exemplares. O principal êxito do disco foi Garota de Ipanema (The girl from Ipanema) http://www.youtube.com/watch?v=UJkxFhFRFDA, interpretado por por Astrud Gilberto. Os direitos autorais dessa música possibilitaram, finalmente, a Tom Jobim comprar uma casa, no Leblom, deixando, assim, de "correr atrás do aluguel".
Em novembro de 1964, o compositor voltou aos estados Unidos e verificou que era uma figura muito popular no país. "Como se fosse um artista de cinema", escreveu Aloysio de Oliveira para a revista Manchete, "o nosso Tom Jobim é detido na rua para assinar autógrafos". Três aparições no programa de televisão de Andy Williams, exibido de costa a costa, contribuíram para essa popularidade de Tom. A Warner Brothes contatou-o para fazer dois discos com Nelson Riddle, o maestro de Frank Sinatra, mas fez apenas um. Depois, gravou A certain Mr. Jobim, com arranjos e regência de Claus Ogerman. Tom voltou para o Brasil e, dois anos depois da segunda viagem aos Estados Unidos, ele estava tomando chope, numa tarde de dezembro, no bar Veloso, em Ipanema, quando o telefone tocou e um garçom chamou-o. Era um telefonema dos Estados Unidos e, do outro lado, estava Ray Gilberto, o autor para o inglês de quase todas as músicas de Tom Jobim. Ray identificou-se e passou o telefonema para Frank Sinatra que foi logo dizendo: "Quero fazer um disco com você e desejo saber se acha uma idéia interessante."
O LP Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim http://www.youtube.com/watch?v=mcMm4eDIAeg foi escolhido, por unanimidade, pela crítica especializada dos Estados Unidos como o álbum vocal do ano. Ganhou o Grammy. Foi um sucesso de crítica e de público, pois só perdeu em vendagem, em 1967, para o LP dos Beatles, Sgt. pepper's lonely Hearts Club Band. Em 1969, Sinatra convidou Tom Jobim para outro disco. A destacar, entre outras coisas, o fato de terem sido aqueles os únicos LPs que Frank Sinatra gravou, em toda a sua carreira, com um só autor. Levando-se em conta que o cantor fora o principal intérprete de compositores como Irving Berlin, Cole porte e johnny Mercer, a escolha do brasileiro Tom para a gravação de dois discos não deixa de ser um fato que honra a sua carreira.
Um parceria de Tom Jobim e chico Buarque de Holanda, a bela canção Sabiá http://www.youtube.com/watch?v=SBXGkRBRGug , seria a grande vencedora do Festival Internacional da Canção de 1968. Em 1971, mais prêmios: a Coruja de ouro e o prêmio Instituto Nacional do Cinema pela trilha sonora do filme A casa assassinada, de Paulo César Sarraceni. Depois de gravar o LP Stone Flower, nos Estados Unidos, Tom lançou uma das suas obras-primas, Águas de março http://www.youtube.com/watch?v=srfP2JlH6ls, letra e música de sua autoria. "É uma daquelas músicas", escreve o excelente crítico norte americano Leonard Feather, "que exibem estrutura complicadíssima quando analisadas, mas que soam incrivelmente espontâneas e naturais quando ouvidas e sentidas."
Tom Jobim casou-se pela segunda vez, em 1978, com Ana Beatriz e formou seu próprio conjunto musical, a Banda Nova, da qual fazem parte seus filhos mais velhos, Paulo e Beth, e sua mulher, Ana. Ganhou muitos prêmios e honrarias, no país e no exterior, como a Ordem do Rio branco e L 'Ordre de Grand Comandeur des Arts et des Lettres, da França, entre outros. Tem gravado vários discos, sempre tentando salvar o Brasil e sua gente, seus bichos e sua floresta. Nasceu ecólogo antes da palavra virar moda. E é ele, sem dúvida, o maior nome da música popular brasileira.
Por Sérgio Cabral
Fonte: Songbook Tom Jobim (Produzido por Almir Chediak)
Resumo: Teo Miro
Em 1955, Antonio Carlos Jobim já era um compositor procurado pelos cantores e uma das sua músicas - o samba - canção Se é por falta de adeus, parceria de Dolores Duran - foi considerada das melhores do ano. A interpretação ficou por conta de Dóris Monteiro. Ainda em 1955, firmava-se também como um dos arranjadores da continental, contemplada com com o prêmio de melhor gravação do ano, da revista Cigarra, com o samba-canção Eu e meu coração (Inaldo Vilarim e A. Botelho), gravado por Dóris Monteiro. O arranjo era de Tom. O seu trabalho como arranjador rendeu-lhe o segundo lugar (ao lado de Pixinguinha e de Renato de Oliveira) na relação dos melhores do ano, elaborada pelo crítico Ary Vasconcelos. Em primeiro lugar, empatados, ficaram Radamés Gnattali e Lyrio Panicalli. Naquele ano, passou a trabalhar ao lado de maestros como Oswado Borba, léo Peracchi e outros.
Mas o que mudaria, definitivamente, a vida e Tom Jobim foi o seu encontro com o poeta Vinicius de Moraes, no bar Vilarino, no Centro do Rio de Janeiro, em meados de 1956. No Vil\rino, Vinicius comunicava aos companheiros de boêmia a sua preocupação por não ter ainda encontrado um músico para fazer a direção musical e criar as melodias da sua peça Orfeu da Conceição. Foi o crítico e historiador de nossa música popular Lúcio Rangel quem teve a idéia de conduzir Tom Jobim, sentado numa das mesas do Vilarino, à mesa de Vinicius de Moraes. Feita a apresentação, Vinicius passou a expor a sua idéia da peça - versão negra do mito grego de Orfeu, o divino músico de trácia.
Após ouvir tudo pacientemente Tom respondeu com uma pergunta: "Tem algum dinheiro nisso?" Lúcio Rangel convocou-o para um canto e observou: " Este é o poeta e diplomata Vinicius de Moraes! Como é que você tem coragem de falar em dinheiro numa hora dessas?" É que Lucio não sabia que Tom Jobim enfrentava dificuldades financeiras e "vivia correndo atrás do alugue".
A pergunta, porém , não alterou a intenção de Vinicius de tê-lo como parceiro em Orfeu da Conceição. No dia seguinte, já estavam trabalhando na casa do poeta. Se todos fossem iguais a você foi a primeira música que ficou pronta. Em seguida, foram saindo Mulher sempre mulher, Um nome de mulher, Eu e meu amor e Lamento do morro. Tom também fez a harmonização da Valsa do Orfeu, letra e música de Vinicius de Moraes. A peça estreou no Teatro Municipal, com direção de Léo Jusi, cenários de Oscar Niemeyer,figurinos de Lila de Moraes, direção musical de Tom Jobim, regência de Léo Peracchi e um imenso elenco.
Terminada a temporada da peça, a dupla Tom Jobim - Vinicius de Moraes começou a trabalhar nas músicas da versão cinematográfica de Orfeu da Conceição, produção francesa de Sacha Gordine e direção de Marcel Camus. Entre as músicas feitas para o filme - vencedor do Festival de Cannes de 1959 - , estavam a samba A felicidade e O nosso amor. A vitória em cannes e o grande sucesso internacional do Orfeu contribuíram, sem dúvida, para o clima de euforia existente no Brasil, produzido pelo governo desenvolvimentista de Juscelino Kubitschek de Juscelino Kubitschek. No campo da cultura, surgia o Cinema Novo e o teatro renovava-se com o aparecimento de novos autores, novas peças, novos atores, todos comprometidos com uma nova linguagem e com a discussão dos problemas brasileiros, no esporte foram varis as conquistas, como a da Copa do Mundo da Suécia, a de todas as competições internacionais de tênis pela paulista Maria Ester Bueno e a do título mundial de boxes obtido por Éder Jofre.
Nesse clima surgiu a Bossa Nova. Foi o clímax de diversas tentativas de modernização da nossa música popular, feitas desde a divulgação da obra de Custódio Mesquita e que passaram pelo lançamento do samba-canção Copacabana, das músicas feitas por Garoto, Jony Alf, Valzinho e pelo próprio Antonio Carlos Jobim. O movimento explodiu quando a gravadora Odeon lançou, em julho de 1958, um disco de 78 rotações, contendo Chega de Saudade (Tom Jobim e Vinicius de Moraes) http://www.youtube.com/watch?v=guMek3_D6ls e, do outro, Bim-bom (João Gilberto). Os arranjos eram do próprio Tom e o interprete o baiano João Gilberto que introduzia na música popular brasileira uma nova batida de violão e um estilo revolucionário de cantar nossas músicas. E foram as músicas cantadas por joão que iriam consolidar o movimento. Uma delas, foi Desafinado, de Tom Jobim e Newton Mendonça http://www.youtube.com/watch?v=n81JA6xSbcs, cuja letra dizia que "isso é bossa nova/Isso é muito natural".
Estabelecia-se, assim, o trio de 'papas' da Bossa Nova, composto por João Gilberto, Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes. Outros nomes importantes no movimento foram o produtor Aloysio de Oliveira, a cantora Silvinha Telles e os compositores Carlos Lyra , Roberto Menescal, Ronaldo Bôscoli, Sérgio Ricardo, João Donato e vários outros.
Em fins de 1960, a Odeon fez a primeira exportação da Bossa Nova para os EUA, mandou uma montagem de gravações de João Gilberto intitulada Brazil's brilliant. Em 1961, apresentou-se no Rio de Janeiro um importante grupo de músicos norte-americano de jazz que, gravou ao voltar para os Estados Unidos, gravou músicas da Bossa Nova. Eram eles Coleman Hawkins, Curtiss Fuller, Zoot Sims, Herbie Mann e outros. Nos Estados Unidos, Chales Byrd e Dizzy Gillespie gravavam bossa nova.Stan Getz fazia a famosa gravação de Desafinado http://www.youtube.com/watch?v=dxYNMO-PdHA&ob=av2n, com a qual vendeu mais de um milhão de exemplares. A música de Tom Jobim estourava nos EUA, país que só conheceu em novembro de 1962, quando integrou o grupo de brasileiros que se apresentou no Carnegie Hall.
Tom permaneceu em Nova Iorque quase nove meses, período que foi considerado o melhor arranjador musical pela National Academy of Recording Arts and Sciences, da qual recebeu o seu primeiro troféu internacional. O premio referia-se aos arranjos do disco de João Gilberto que a Odeon enviou para os EUA. Em maio, gravou o LP Antonio Carlos Jobim - the composer of Desafinado plays, com 12 músicas de sua autoria, entre as quais Garota de Ipanema, que, pouco depois, seria o maior suceso de música brasileira no exterior. O crítico Pete Welding, do Down Beat, atribuiu nota máxima ao disco - cinco estrelas - e lamentou não haver "mais estrelas para premia-lo".
Pouco depois, outro disco chegava ás paradas norte-americanas; Getz, Gilbert - featuring Antonio Carlos Jobim, que, em menos de um ano, vendeu mais de dois milhões de exemplares. O principal êxito do disco foi Garota de Ipanema (The girl from Ipanema) http://www.youtube.com/watch?v=UJkxFhFRFDA, interpretado por por Astrud Gilberto. Os direitos autorais dessa música possibilitaram, finalmente, a Tom Jobim comprar uma casa, no Leblom, deixando, assim, de "correr atrás do aluguel".
Em novembro de 1964, o compositor voltou aos estados Unidos e verificou que era uma figura muito popular no país. "Como se fosse um artista de cinema", escreveu Aloysio de Oliveira para a revista Manchete, "o nosso Tom Jobim é detido na rua para assinar autógrafos". Três aparições no programa de televisão de Andy Williams, exibido de costa a costa, contribuíram para essa popularidade de Tom. A Warner Brothes contatou-o para fazer dois discos com Nelson Riddle, o maestro de Frank Sinatra, mas fez apenas um. Depois, gravou A certain Mr. Jobim, com arranjos e regência de Claus Ogerman. Tom voltou para o Brasil e, dois anos depois da segunda viagem aos Estados Unidos, ele estava tomando chope, numa tarde de dezembro, no bar Veloso, em Ipanema, quando o telefone tocou e um garçom chamou-o. Era um telefonema dos Estados Unidos e, do outro lado, estava Ray Gilberto, o autor para o inglês de quase todas as músicas de Tom Jobim. Ray identificou-se e passou o telefonema para Frank Sinatra que foi logo dizendo: "Quero fazer um disco com você e desejo saber se acha uma idéia interessante."
O LP Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim http://www.youtube.com/watch?v=mcMm4eDIAeg foi escolhido, por unanimidade, pela crítica especializada dos Estados Unidos como o álbum vocal do ano. Ganhou o Grammy. Foi um sucesso de crítica e de público, pois só perdeu em vendagem, em 1967, para o LP dos Beatles, Sgt. pepper's lonely Hearts Club Band. Em 1969, Sinatra convidou Tom Jobim para outro disco. A destacar, entre outras coisas, o fato de terem sido aqueles os únicos LPs que Frank Sinatra gravou, em toda a sua carreira, com um só autor. Levando-se em conta que o cantor fora o principal intérprete de compositores como Irving Berlin, Cole porte e johnny Mercer, a escolha do brasileiro Tom para a gravação de dois discos não deixa de ser um fato que honra a sua carreira.
Um parceria de Tom Jobim e chico Buarque de Holanda, a bela canção Sabiá http://www.youtube.com/watch?v=SBXGkRBRGug , seria a grande vencedora do Festival Internacional da Canção de 1968. Em 1971, mais prêmios: a Coruja de ouro e o prêmio Instituto Nacional do Cinema pela trilha sonora do filme A casa assassinada, de Paulo César Sarraceni. Depois de gravar o LP Stone Flower, nos Estados Unidos, Tom lançou uma das suas obras-primas, Águas de março http://www.youtube.com/watch?v=srfP2JlH6ls, letra e música de sua autoria. "É uma daquelas músicas", escreve o excelente crítico norte americano Leonard Feather, "que exibem estrutura complicadíssima quando analisadas, mas que soam incrivelmente espontâneas e naturais quando ouvidas e sentidas."
Tom Jobim casou-se pela segunda vez, em 1978, com Ana Beatriz e formou seu próprio conjunto musical, a Banda Nova, da qual fazem parte seus filhos mais velhos, Paulo e Beth, e sua mulher, Ana. Ganhou muitos prêmios e honrarias, no país e no exterior, como a Ordem do Rio branco e L 'Ordre de Grand Comandeur des Arts et des Lettres, da França, entre outros. Tem gravado vários discos, sempre tentando salvar o Brasil e sua gente, seus bichos e sua floresta. Nasceu ecólogo antes da palavra virar moda. E é ele, sem dúvida, o maior nome da música popular brasileira.
Por Sérgio Cabral
Fonte: Songbook Tom Jobim (Produzido por Almir Chediak)
Resumo: Teo Miro